livrarias,  Opinião

A crise das livrarias no Brasil

A rede Saraiva anunciou o fechamento 20 lojas físicas ao redor do Brasil ( Londrina , Santos e  Mogi das Cruzes são alguns desses endereços que perderão lojas) e também todas as 8 lojas da rede iTown, que era o braço da empresa que revendia produtos Apple.
Assim como a livraria Cultura, que pediu recuperação judicial recentemente ( pra quem não entende do assunto, seria uma reorganização da empresa para evitar falência), o fechamento de lojas é, para muitos, sinal de uma crise editorial que o país vem vivendo nos últimos anos.

Essa crise , contudo , não significa que as vendas de livros estão baixas. Paradoxal , não acha?  Sindicato Nacional de Editores de livros, por exemplo,  estima que houve crescimento e faturamento positivo em vendas de livro durante todo o ano.  ( veja uma materia no Publish News sobre esse crescimento positivo aqui )

O que acontece, então ??

Muitos fatores são responsáveis por essa suposta crise, e eu não pretendo entrar em detalhes sobre todos eles. Gostaria de citar alguns para que voces entendam que, ainda que o ambiente econômico esteja difícil,  precisamos colocar os pingos nos is e entender que a culpa não é dos livros .

Alem da questão economica propriamente dita, existem importantes problemas de gestão dessas empresas do mercado editorial que afetam todo o resto.

Os tempos modernos nos obrigam a pensar em formatos diferentes de organização, de plataformas de vendas, de público e de material. Para mim, é uma crise quase existencial, onde o antigo modelo de trabalho, de gestão – de foco no lucro a todo custo – e de vendas não funciona mais.  Todos se lembram daquela transição de modelos industriais : saimos do Fordismo para o Taylorismo, e depois para o Toyotismo. Lembre-se que  a cada transição, temos perdas e ganhos. Aquele que se recusa a mudar  perder, e ao mesmo tempo, essa ênfase em se adaptar e de desfazer-se de determinadas estruturas sem o devido estudo perde igualmente.

É preciso entender o mercado e adaptar-se.

Livrarias pequenas perdem clientes para as grandes redes todos os dias. Custos operacionais, locação de imoveis, pouca variedade de títulos, tudo conspira contra os livreiros. Paradoxalmente, frente a atual crise editorial, percebemos a resistencia das pequenas livrarias ( veja uma materia bem e recente sobre isso aqui ) . O que elas têm que as grandes não possuem é o cuidado com o cliente , material específico e qualificação do atendente, coisas que, nos tempos de hoje, são diferenciais.

Uma das criticas feitas as redes Saraiva e Cultura é a massificação / homogeneidade do conteúdo vendido. Para mim, isso é um problemas que rebaixa as visitas e as compras em lojas fisicas. Quero ir até a loja e descobrir obras e autores, não  frequento livrarias para encontrar aquelas obras  que vejo na internet todos os dias.

Recentemente eu li um artigo na PublishNews que dizia que a rede pode até ter suas vantagens, como custos de operação menores – o que gera preços mais acessíveis –   mas ela acaba ignorando que os frequentadores das redes não diversos.  Esse é um erro de gestão que afeta diretamente as empresas. Boa base das vendas deve ser  de materia homogêneo para que haja lucro,  mas aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, é facil  perceber que os frequentadores são cultural e socialmente diversos o suficiente para não procurarem os mesmos livros. Se dentro de uma cidade e de um estado pequeno já existe diversidade imensa, imagina no pais como um todo ! Eu mesma , por exemplo, ainda que compradora habitual de livros , tambem leio best -sellers, o que me coloca, ao mesmo tempo, em dois nichos diferentes de compradores. Como agradar um publico moderno e variado? Adaptar-se é preciso.

Adaptação aos novos tempos não necessariamente precisa significar ruptura com o cliente. Conciliaçao é possivel, e as decisões estratégicas  não precisam necessariamente contrariar clientes,  acionistas ou investidores. Entretanto, ter coragem para reinventar sua marca pode levar a decisões duras, mas que são muito necessárias para a manutenção do funcionamento das empresas.

No caso da Saraiva, por exemplo, foi primordial se livrar da venda dos eletronicos e da revenda autorizada dos produtos Apple. No caso da Cultura, que não tem muita expertise no comercio digital variado, foi importante usar a estrutura da FNAC para adentrar num mercado que pode alavancar suas vendas, e usar o dinheiro vindo destas para saldar dividas. Cada um descobre o que fazer para sair do vermelho, mas precisa ter em mente como atingir o coração do seu publico frequentador, e não acho que tenham feito um bom trabalho nessa área.

E não só as livrarias sofrem desse mal – também várias editoras tradicionais estão passando por esse processo. Sair da rigidez do mercado físico para desbravar o digital é um desses desafios que demandam mudanças profundas.  Buscar novas literaturas ou revigorar classicos são decisoes que precisam ser pesadas.  Conheço historias na qual velhos diretores ou editores deixaram passar obras literarias que viraram best sellers  pelo simples fato de não gostarem do tema do livro , sem fazerem sequer pesquisa de mercado. Os novos tempos exigem maior conhecimento do publico alvo !

As pequenas e medias editoras sofrem, de maneira direta, com o fechamento dessas livrarias / empresas  varejistas de venda de livros, porque os recursos recebidos das grandes livrarias representam até 45% do faturamento de certas editoras , e muitas estão estao sem receber pagamentos das livrarias faz mais de 4 meses, ou recebendo em parcelas  que não cobrem os custos mensais ( grande parte trabalha por consignação ). Isso enseja em redução de quadro de funcionarios, menos reimpressões e menos lançamentos de obras inéditas. Acho que todos podemos ver o efeito cascata gerado.

E para nós, leitores e promotores de leitura, o que tudo isso significa?

Significa que os tempos mudam, e a roda gira. Novas formas de promoção, distribuição e comercialização da leitura, demandam mais conhecimento. É preciso buscar conhecer diferentes autores, editoras , cooperativas, livrarias.  Enquanto houver leitores, existirão empresas querendo vender livros, mas nem todas estarão interessadas na modernização dos seus valores,  da missão e de suas estruturas para que a venda de livros continuem a crescer nesse país. Cabe a nós saber como, quando ou onde comprar. Nesse momento em que esforços educacionais são relativizados na sua importancia pelo  novo governo, precisamos continuar insistindo na importancia da leitura, havendo crise editorial ou não.

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