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Autor x obras parte 02 – mais polêmicas literárias

Posted by Luana Gomes

Olá, queridos leitores !

O post de mais repercussão nesse blog é aquele onde eu falo sobre a minha autora favorita, Marion Zimmer Bradley, e toda a polêmica envolvendo sua vida pessoal , que me levaram a triste realidade de não mais poder recomendar suas obras. Eu vou deixar o link desse post AQUI, caso você não saiba dos pormenores desse caso.

Não foi fácil encarar a verdade. Descobrir que uma pessoa que você admira, alguém cujos livros moldaram sua vida, é proponente de pensamentos retrógrados, de ódio ou é culpado por ações criminosas mexe com a nossa cabeça.

No caso de Marion Zimmer Bradley, pedofilia e estupro estiveram em jogo. Segundo a filha de Marion, a autora e seu marido sempre se safaram desses crimes devido ao dinheiro e a influência que tinham. Foram acobertados por pessoas influentes até do campo editorial. Na minha opinião, não há como separar autor da sua obra em um caso como esse.

A mais nova polêmica envolve JK Rowling.

Você já deve ter ouvido a respeito. A autora da série Harry Potter abertamente expressou preconceito para com pessoas transgênero, usou teorias e pesquisas ultrapassadas para justificar tal posicionamento, e faz questão de mostrar sua posição, ou seja, assume postura preconceituosa de maneira consciente.

Sim, já faz tempo que ela deixa seu posicionamento claro para todos nós, e eu, como a maior parte dos leitores, não tinha ideia de que isso era verdade. Já faz alguns anos que JK escreve livros de mistério usando um pseudônimo, Robert Gailbraith. Você já deve ter visto, certo? De onde será ela tirou esse nome nome, você deve ter se perguntado. Pois bem, Robert Gailbrath é um médico muito conhecido no meio da psicanálise – é um dos pioneiros na questão da terapia de conversão.

O que significa isso? Terapia de conversão é o que os conservadores empregam na tentativa de buscar reorientação sexual de pessoas homossexuais. Sim, é isso mesmo que você ouviu, a tal “cura gay”. Esse senhor pregava métodos radicais para fazer uma pessoa deixar de ser gay, métodos esses que comumente envolviam , dentre outras tratativas horrendas, terapia de choque e lobotomia.

Depois dessa, você ainda acha que JK Rowling tem salvação? Eu não.

Ela é bem vocal na sua posição contra mulheres trans, na minha opinião, porque se aproveita da falta de informação das pessoas sobre identidade, gênero e orientação sexual. Ela sabe bem que se for vocal na sua viés homofóbica, ela vai ser aniquilada. Agora que a polêmica do pseudônimo foi descoberta, fica evidente que ela é uma pessoa retrógrada.

Sabe o que é pior? Retrógrada, FAMOSA E RICA.

Mas o que isso tem a ver com seu trabalho literário?

Não acho que um autor seja capaz de escrever qualquer coisa sem injetar ali suas vivências, crenças e opiniões. Eu li algumas análises mais profundas da obra de Harry Potter, e me espantei com o tanto de preconceito que perpassa a obra sem que tenha me dado conta. Hoje, eu consigo apontar vários problemas na narrativa. Eu acompanhei , no Youtube, um grupo de jovens adultos que não leram HP quando criança, e eles foram muito perspicazes, sacando algumas insinuações e preconceitos que eu não vi quando li. A nova geração, mais antenada a essas questões, percebeu logo. Atrapalha a experiencia? Sim. Invalida a leitura? Nem sempre.

Eu resolvi que não vou promover a franquia Harry Potter. Leria de novo? Não sei. Analise suas convicções e seus sentimentos, e veja se vale a pena continuar promovendo os livros ou comprando merchandising da franquia. É esse dinheiro que continua dando a autora o espaço que tem, e quanto menos espaço ela tiver para pregar ódio e preconceito, melhor.

Quer mais polêmica?

O autor de ” Uma mulher na Janela ” Dan Mallory ( usando o pseudônimo AJ Finn), é outro que se meteu em tantas controvérsias que não acredito que eu consiga separar obra do autor. Há uma matéria enorme na New Yorker Magazine ( link AQUI) contando todas as trapaças e mentiras que ele empregou em sua carreira – temos inclusive acusações de plágio que, embora não pudessem ser provadas na justiça, são muito convincentes.

Uma publicação americana chamou o autor “171 literário”, porque parece até historia de ficção – ele inventou diplomas, mentiu sobre sua família, e chegou ao ponto de dizer que tinha câncer no cérebro para conseguir vantagens profissionais. Dizem as fofocas que usou de um pseudônimo porque, se usasse o seu nome verdadeiro, as pessoas com quem trabalhou no mercado editorial impediriam seu progresso. Sua reputação nos bastidores do mercado editorial não é boa. A adaptação do livro ficou parada depois do escândalo vir à tona, e foi novamente adiada por conta da COVID 19.

Dan Mallory disse que tudo o que fez foi por conta do transtorno bipolar. Sim, ele deu essa cartada. Afastou-se dos holofotes desde então, tentando preservar o que resta da sua imagem. A editora que publica seus livros? Acredite se quiser, continuou com o contrato ! Eu tenho certeza que se essa trapaça fosse protagonizada por um mulher ou um pessoa negra, o contrato NUNCA seria mantido.

Como o movimento Me too ainda ativo, casos de escândalos sexuais, abuso e assédio colocam muitos autores em cheque . O autor de “13 reasons why” Jay Asher, foi acusado de assédio e intimação sexual – não negou as alegações, e pediu desculpas. O autor Sherman Alexie, um dos maiores expoentes em literatura indígena/nativo-americana nos EUA, também foi acusado de assédio por mais uma dezena de mulheres. James Dashner ( autor da série Maze Runner ) e Warren Ellis ( da DC Comics ) também se desculparam. A maior parte desses homens continuam trabalhando normalmente.

Aqui no Brasil, Fred Elboni está nessa mesma sinuca. Teve as agressões expostas pela ex namorada, e , com esse depoimento, várias mulheres vieram confirmar que também conhecem outras histórias ou que sofreram agressões das mãos do autor. Fred pediu desculpas, mas as histórias envolvendo seu nome não param de aparecer, e pessoas bem famosas corroboraram as alegações das vítimas.

Para um autor que escreve para o universo feminino , isso é imperdoável. A editora Benvirá, depois de certa pressão dos leitores, chegou à conclusão que o mais acertado seria tirar os livros dele de circulação até tudo ser solucionado. Até agora estamos esperando a Editora Sextante tomar uma posição a respeito. Claro, entendemos que é necessário que todo os fatos sejam esclarecidos, mas ter responsabilidade social é imperativo – retirar os livros das plataformas de venda já é um bom começo.

Desculpar-se pode ser suficiente para muitos leitores, mas para outros é preciso que haja punições claras . Há livrarias que inclusive estão, por conta própria, tirando das prateleiras nomes envolvidos em escândalos do tipo.

E então, será que vale a pena continuar lendo esses autores?

Acho que é uma questão pessoal. A minha maior preocupação com autores polêmicos é o ganho financeiro – eu não me sinto confortável sabendo que eu, comprando e divulgando determinado material, aumento os recursos financeiros desses autores, recursos esses que poderão ser usados para encobrir os crimes e perpetuar comportamentos abusivos e criminosos.

Um exemplo prático – sou fã de sci-fi, e Isaac Azimov é um grande expoente do gênero. Ele é um autor famoso não só pelos seus livros, mas – acredite se quiser – por seu hábito de passar a mão em mulheres nas feiras / exposições geek . Uma pessoa, certa vez, foi até o comitê da feira WordCon reclamar dele ( Azimov havia intimidado sexualmente a namorada do rapaz) e, ao invés de ter sua reclamação registrada, acabou sendo expulso do local. Ele comumente fazia uso de sua fama e dinheiro para não ser incomodado, reinando livre, diminuindo mulheres e passando a mão em quem quisesse.

Sabendo disso, pensei muito a respeito se deveria ler Azimov ou não. Ainda que sua obra não tenha narrativas controversas ( Lovecraft, por exemplo, é cheio de metáforas racistas e eu não tenho interesse ) , para mim, uma literatura construída em cima de subjugação alheia não tem espaço na minha estante.

E você , o que acha dessas polêmicas? Deixe sua opinião nos comentários !

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1 Comment

  1. Lara

    Respondi seu outro post e logo depois li esse. Acho que pensamos muito a respeito do que os outros vão pensar sobre o que lemos. Óbvio, produzimos conteúdos de leitura. Este “se vou ler ou não, não sei” não está errado. Minha decisão continua a mesma, não quero divulgar em forma de recomendação. Acho que cada um decide mas deve saber sobre o autor, não pode passar pano. Essa questão da idolatria é a parte mais perigosa pra mim.
    Sobre As Brumas, ainda não me decidi por completo, pq como disse anteriormente, foi algo extremamente marcante pra mim. O que decidi é que as brumas foram marcantes, então não vou buscar nada mais dela. Se algum dia for ler de novo, vou ler as brumas e só (nem os outros do ciclo de Avalon). O mesmo com JK, Harry Potter e só. E mesmo assim, vai ser algo pessoal, não público. Outra decisão foi pesquisar outros livros a respeito. Marion se destacou por contar a história na versão feminina, hoje em dia outras autoras fazem o mesmo. Sei que não é a mesma coisa, mas pode ajudar
    Como vc disse, ela era sua escritora favorita, não te julgo nem um pouco se quiser ler de novo algum dia, mesmo após o post.
    Tenho uma amiga que quer há tempo ler os 13 Porquês, ela decidiu algo parecido, que essa será sua única obra do autor. No caso dela, como ele está vivo, preferiu comprar num sebo.
    Foi como uma entrevista que vi da Greta gerwing. Ela não nega que Woody Allen foi importante para ela, chegou a participar de um filme, mas definiu não apoiar mais nada dele daquela data em diante, e ao que parece a própria Dylan não criticou a postura dela. Deixo claro que não uso isso como regra, uso as vezes como exemplo por ser uma caso bem vivo ainda e que é por diversas vezes manifestados em redes sociais

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