Autores internacionais, Filmes e séries, Indicações, Livro x filme, Livros, Opinião

Livro x filme : Bonequinha de luxo

Posted by Luana Gomes

Minha professora de Tradução Literária escolheu o livro “Breakfast at
Tiffany´s ” – em português, “Bonequinha de luxo” – para a nossa primeira prova, tempos atrás, e eu confesso que comecei a leitura sem grandes esperanças. Afinal, eu já tinha visto o filme e sabia o que esperar.

Ledo engano.

Para quem não conhece o livro, ele nos conta a historia de um jovem escritor e sua amizade com a charmosa Holiday Golightly na Nova York da década de 1940. A conexão entre eles é rápida e fulminante : ela é bonita, misteriosa, fútil, um espírito livre que vive à mercê dos seus desejos. Vivendo entre ricos e famosos , ela parece estar no topo do mundo.


No entanto, ao decorrer das páginas, novas camadas de Holly são expostas.
Por baixo do charme e das festas se esconde, na verdade, uma Holly azeda, sofrida, carente e problemática, que não é dona nem de seu próprio nome. Fred, o amigo e também narrador, pinta um retrato fascinante, e , ao mesmo tempo, triste, dessa amizade que, quando mais se aprofunda, se despedaça. A narrativa de Capote é de grande qualidade, e nos permite mergulhar tanto nas frivolidades quanto nas dores mais profundas dos personagens.

Na adaptação cinematográfica, contudo, a história ganha uma perspectiva bem mais otimista. Acho que o recorte temporal ajuda : no filme estamos na década de 1960, e, no livro, em meados dos anos 1940, ainda na Segunda Guerra Mundial.
E claro, o protagonismo de Holly no roteiro cinematográfico alcança novos patamares com a linda Audrey Hepburn, que marcou uma geração com seu estilo e carisma. A personagem me parece ter adquirido algumas caracteristicas que são tipicamente de Audrey , não tanto da Holly original.

Livro e filme seguem por caminhos bem similares – a maior parte dos diálogos, inclusive, saíram do livro direto para as telas do cinema -, mas são fundamentalmente diferentes.

Comparando livro com filme, percebemos duas mudanças fundamentais, que afetam nosso entendimento. A primeira é que a essência de Holly foi transformada ao longo do filme, alterando o desfecho da história. A segunda mudança, relacionada com a primeira, é que a complexidade do relacionamento entre Holly e Paul foi minimizado com a inserção do romance.

O fato do filme dar um final feliz e romântico a Holly pode fazer sentido para o meu coração adolescente e para a Holly de Audrey Hepburn, mas não faz sentido para a Holly de Truman Capote.
Vou explicar.

( Se não leu o livro ou viu o filme , atenção que temos SPOILERS abaixo !! )

A protagonista original, Holly Golightly, é uma mulher buscando ressignificação, que opera por meios um tanto questionáveis para viver da maneira que deseja, isso é, sem vínculos, sem as restrições do casamento, sem subjugação.

Ela é seca, esnobe, não vê problemas em se aproveitar de homens mais velhos e do sistema social. Não quer fincar raízes, gosta de construir uma persona diferente a cada novo endereço. Com seus cabelos curtos e seu papo progressista no campo político e sexual, ela é uma jovem feminista antes de seu tempo, que deseja liberdade, esquecer sua vida patética e trágica, e fazer valer seus desejos.

Todo esse enigma é o que mais atrai Fred. Claramente homossexual, o nosso narrador ( ele é chamado de Fred por Holly, mas sua identidade não nos é revelada – reza a lenda que ele é inspirado no próprio Capote) vê na protagonista uma figura livre das amarras que ainda o prendem. Holly é oportunista e esperta, enquando o narrador ainda vive em uma perspectiva mais romântica da vida. Ao mesmo tempo, ele acredita que, por debaixo de toda as maquinagens e do sarcasmo de Holly, existe uma mulher buscando conexão e intimidade, e ele está disposto a ajuda-la nessa descoberta.

Toda essa contradição, para mim, faz o livro muito especial.

Infelizmente toda essa complexidade se perdeu no filme , e , colocando os dois como um par romântico, os conflitos internos que admiramos no livro não fazem tanto sentido. Uma Holly domesticada não é o objetivo do texto original.

E não me entenda mal, eu adoro a adaptação e seu final feliz. Acho que o filme serve seu propósito, e tem uma Holly Golightly/Audrey perfeita para ele. No entanto, insisto que você leia o livro. Você vai experimentar essa história icônica de uma forma ainda mais intimista e intensa e vai se encantar com a Holly original. É um livro curtinho e muito satisfatório !

Related Post

1 Comment

  1. danielly

    parar de beber foi a melhor coisa que eu fiz na vida hoje tenho muito mais tempo parar ler livros que eu realmente gosto.

Leave A Comment