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O ódio que você semeia

Olá queridos leitores ! Como anda a vida?

A resenha de hoje é diferente e especial.

O odio que você semeia foi uma leitura muito impactante, feita em conjunto com minha amiga Virginia, do @quemevclivro. Ao invés de falar sobre a somente na historia ou comentar a sinopse, vou compartilhar com vocês o que senti e aprendi com esse livro.

Em “O odio que voce semeia”, nós acompanhamos a vida de Starr, uma adolescente afroamericana que vive diariamente uma situação conflitante: ela estuda em uma escola com alunos de classe média alta e predominantemente branca, mas mora em um suburbio pobre e negro. Em cada um desses ambientes ela precisa se conformar com as normas, ajustar seu discurso e suas atitudes para ser aceita.

Um dia, em uma festa no seu bairro, ela reencontra um grande amigo de infancia, Khalil, que resolve dar uma carona para Starr. No trajeto, o carro deles é parado por viaturas policiais. A abordagem é tensa e violenta, e não segue o protocolo esperado. Khalil acaba morto por um policial branco.
É a partir dessa violência que se desenrola a jornada pessoal de Starr – ela vai precisar compreender e superar confitos sociais e raciais para poder fazer a coisa certa- buscar justiça pela morte do amigo.

O livro se passa nos Estados Unidos, mas facilmente poderia essa história estar acontecendo no Brasil. Eu, que vivi grande parte da vida no suburbio, no lado pobre do Rio de Janeiro, já presenciei várias vezes como o racismo estrutural se reflete nas abordagens policiais. Se você nunca parou para pensar nesses temas, o livro vai te surpreender, porque ele não é o tipo de história que você consegue digerir depois de uma refexão particular e solitaria. Esse livro vai te deixar cheia de perguntas e questionamentos, e vai levar você a pesquisar e conversar com seus amigos a respeito.

Foi exatamente isso que eu e a Virginia fizemos. Sabendo do tema do livro, lemos juntas e conversamos muito sobre os assuntos nele tratados. Virginia manja de Geografia politica e social; eu, de Geopolitica. Foi um debate muito doido, mas muito produtivo.

O livro me ajudou a esclarecer muitas questões, e eu aprendi muito. Por meio da Starr e de sua família, aprendi ainda mais sobre racismo e preconceito, como questões de raça dificultam a mobilidade social e economica, sobre violencia e trafico de drogas, como a política e a polícia lida com o tema racial, e sobre o preconceito velado cotidiano.

Starr não foi um personagem que me conquistou, sinceramente. Mas eu a compreendo perfeitamente, e por isso ela ganhou minha simpatia. É uma pessoa que busca afirmar sua identidade e sua voz em um mundo que prefere sufoca-la. Os pais de Starr são bastante versados nos conflitos raciais e sociais e não escondem dos filhos as injustiças que enfrentam, então imaginei que, logo de cara, Starr teria um pouco mais em sintonia com sua identidade de mulher negra. Depois da morte do amigo, Starr perde seu foco por conformismo e por medo, e demora um pouco para entender que só ela, como testemunha, pode fazer a diferença para a memória do seu amigo Khalil.

A familia e a comunidade em que Starr vive são, para mim, as estrelas do livro. Aprendi muito com todos eles, desde seus irmãos até seus vizinhos. É por meio das relações familiares e das interações sociais da protagonista que compreendemos a importancia da comunidade na formação da identidade negra. Também presenciamos ali como drogas e a criminalidade atuam para destruir essa comunidade, mantendo negros sempre à margem da sociedade. Angie Thomas, autora do livro, é muito direta e também muito cuidadosa em nos mostrar todas as facetas do que significa ser negro em uma sociedade tão cheia de antagonismos.

A única parte do livro que não me convenceu foi o romance. Starr namora Chris, um jovem rico da sua escola, e apesar de compreender o papel desse rapaz na jornada da protagonista – relacionamentos interraciais são tabus para muitas familias ainda hoje – achei esse arco bem fraco, e o rapaz bem apatico. Virginia, inclusive, torceu contra esse relacionamento no livro !

Eu agora tenho um novo olhar sobre a força do ato de protestar depois de ler o livro. Atualmente, estamos vivendo aqui no pais um silenciamento cada vez maior das pautas que importam, e os protestos , a mobilização da sociedade civil é por muitas vezes criticada e dita ineficaz. Não caiam nessa falacia. Protestar é importante, mobilização é essencial. Starr vai ganhar um novo propósito como jovem negra quando vê que as pessoas se juntam a ela, todas lutando pelo mesmo propósito .

É uma leitura que recomendo a todos, e torço para todos os leitores possam tirar boas lições e crescerem como cidadãos ao conhecer Starr e sua família.

Já leram? Gostaram do livro? Deixem aqui nos comentarios sobre o que acharam dessa historia.

9 Comments

  • Alessandra

    É muito bom quando a gente se der que nos leva a uma reflexão e nos faz crescer. Assim como no seu blog já vi em outros lugares também ótimos pontos de vista com relação a esse leitura. Infelizmente ainda não pude ler esse livro mas talvez até o final do ano eu consiga , e espero que goste tanto quanto você.

  • Ana Caroline Lima Espindula

    Olá!

    Apesar dessa história não me despertar interesse, eu gosto da maneira crua e real que a autora decidiu retratar a realidade de muitos jovens hoje em dia.
    Fico feliz que tenha gostado da leitura, você não é a primeira pessoa que não gosta da personagem principal, vejo muitos leitores que não foram muito fã dela.

  • Debora Sapphire

    Muito bom conhecer melhor a respeito desse livro que parece ser uma ótima leitura! E trazer um alto teor de ensinamentos e lições pra vida toda. Gostei muito de saber que “O ódio que você semeia”, foi uma leitura muito impactante. E melhor ainda, que o livro tenha te ajudado a esclarecer muitas questões importantes. Adorei ler a sua resenha da obra. Muito bom mesmo! Já irei separar o livro aqui, para ler depois.

  • Erika Monteiro

    Oi, tudo bem? Essa diferença racial e preconceito apesar de não ser tão forte como na escravidão ou nos anos em que os protestos eram muito mais fortes ainda é percebida em vários ambientes. Seja numa empresa, nas escolas, as vezes até nas igrejas. As vezes penso que o fato de “criar uma classe” torna o preconceito mais evidente. Talvez se tratassem todos como iguais seríamos apenas seres humanos. Um abraço, Érika =^.^=

  • Joyce

    Olá, esse livro já está na minha lista há um tempão. Dois assuntos ainda tão vividos na sociedade. Infelizmente ainda vemos casos e casos diariamente. Enfim, espero que um dia isso acabe e todos vivam iguais. Bom domingo.

  • Garoto de Outro Planeta

    Adorei a sugestão! Acho que passei por esse livro em alguma loja física ou digital, mas olhando pelo título pensei se tratar de algo relacionado a autoajuda. Estou muito surpreso por não ter nada a ver.

    Acho importante a gente procurar sair da nossa bolha e conhecer outras vivências. Sou branco e não faço ideia do que é sofrer racismo, mas minha mãe é negra e já presenciei coisas assim. Por exemplo, médicos que a tratam diferente, pessoas que pensavam que ela era minha babá quando eu era pequeno.

    É muito triste que o mundo seja assim, mas tomar consciência dos problemas é um passo essencial para a mudança, então esse tipo de livro é muito importante!

  • Rafaella Viegas

    Oiii tudo bem???

    Estava doida para ler esse livro, mas confesso que agora pretendo assistir o filme antes de ler.
    O tema é muito relevante e interessante, e espero apos assistir ainda querer ler.
    Adorei sua resenha.
    Bjus Rafa

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