Autores internacionais, Indicações, Livros, Resenhas, Sci-fi

Resenha: Babel-17 / Estrela Imperial

Posted by Luana Gomes

Se essa resenha parecer um tanto maluca, não se espante. Eu ainda estou tentando processar e colocar em termos simples tudo aquilo que vivenciei nesse livro. Como descrever e avaliar essas histórias que lidam com questões complexas como comunicação, linguagem e metalinguística?

Babel 17 nos conta como uma jovem linguista prodígio – e melhor poeta do universo – chamada Rydra Wong é recrutada para ajudar na luta contra os Invasores, traduzindo as mensagens cifradas que estes transmitem, e que precedem ataques violentos. Ao se dar conta de que as mensagens não são códigos cifrados, mas sim uma forma de linguagem complexa e desconhecida, a protagonista vai viajar pelo universo em uma corrida para desvenda-la, mas será que poderá impedir mais ataques? Será a tentação de conhecer essa língua capaz

Já em Estrela Imperial, conhecemos o jovem Cometa Jo, rapaz de inteligência um tanto limitada, que é incumbido de levar uma mensagem importantíssima até a Estrela Imperial, e para alcança-la, terá de quebrar muitas barreiras.Do que se trata a mensagem? Nem ele sabe. A jornada força tanto protagonista quanto leitor a expandir seu campo de pensamento a níveis que vão mudar o rumo da história.

Aqui temos dois livros de Samuel Delany, e podemos dizer que são uma espécie de experimento literário sobre como a linguagem molda a sua forma de ver e pensar o mundo. Não é fantasia, é ciência – a tese é conhecida como Saphir -Whorf, ou relatividade linguística. Foram lançados aqui em edição “vira-vira” – um desejo antigo do autor, pelo que soube – , e é a solução perfeita, porque as histórias se conectam como em um inusitado quebra cabeça.

Eu achei que Babel 17 tem uma pegada mais técnica, inclusive, já que a protagonista é um linguista famosa. Eu adorei a premissa, a ambientação, e a composição bem peculiar os personagens, mas não achei a trama muito interessante. Contudo, todo o processo de formação e questionamento da realidade por meio da linguagem foi incrível de acompanhar. Se você for um leitor atento, vai se surpreender.

Nome. Nomes? Que há num simples nome? Em que nome estou? Na terra de meu pai, o nome viria primeiro, Wong, Rydra. Na terra natal de Mollya, eu nem usaria o nome de meu pai, mas sim o da minha mãe. Palavras são nomes para coisas. No tempo de Platão, as coisas eram nomes para ideias – que melhor descrição do ideal platônico? Mas as palavras eram nomes para coisas, ou isso era apenas um pouco de confusão semântica? Palavras eram símbolos para todas as categorias de coisas, ao passo que um nome era posto em um único objeto; um nome para algo que exige um símbolo causa ruído, criando humor.(…) Um indivíduo, uma coisa separada de seu ambiente e separada de todas as coisas naquele ambiente; um individuo era um tipo de coisa para qual os símbolos eram inadequados e, portanto, os nomes foram inventados.

Eu sou inventada.

Eu gostei mais de Estrela Imperial nesse sentido. A linha narrativa é mais simples, mas não menos complexa, e me pegou de jeito. Eu não sou muito fã de sci-fis que tratam de batalhas no espaço e seres extraterrestres, mas a ideia de espaço de Delaney é algo tão fora do comum que me agradou. Aqui, além da linguagem, há debates sobre como o a expansão do conhecimento depende mais de experiência do que de inteligência. A história dá voltas e saltos e anda por muitas linhas do tempo diferentes, mas vai te deixar querendo mais no fim.

– Moli, às vezes, quando se é simplexo, a gente se pergunta “Quem sou eu?” (…) Ainda sou um garoto muito comum que gostaria de voltar a um campo de jhup, e talvez lutar com kepardos selvagens. É o que sou. É o que conheço.” (…)

– Você é você , Jo. Você é tudo que já pensou, tudo que já esperou e tudo que já odiou também. E tudo que aprendeu.(…) Jo, você é você. E isso é tão importante quanto você querer continuar.

Por tudo isso, fica aqui um aviso : é preciso comprometimento e atenção. Muitas vezes você vai se ver perdido, ou não vai entender o que está acontecendo. Respire fundo e volte umas linhas. A viagem é doida mesmo. Mas eu gostei tanto que fui atrás do livro na língua original e li de novo.

Foi uma experiência literária bem surreal e muito rica , que eu recomendo para todos aqueles que gostam de rechear o seu lazer com aprendizado.

Ficha Técnica

Título: Babel-17/ Estrela Imperial

Autor: Samuel R. Delany, com tradução de Petê Rissatti
Editora: Morro Branco
Páginas : 400

Opinião Benditos livros : Um bom exercício em metalinguagem que vai agradar os fãs de sci-fi

COMPRE O LIVRO AQUI

Related Post

Leave A Comment